Palavra do Pastor
Falar sobre sexualidade, e principalmente compreender a homossexualidade é uma questão de quebrar tabus, regras e preconceitos existentes em nossa sociedade. Uma grande parcela do mundo ocidental e cristão ainda tem receios e conceitos negativos estabelecidos pela sociedade que são como os casulos, aguardando o momento certo de sair dali uma linda borboleta. Como para nascer é preciso esforço e paciência, assim esperamos e nos esforçamos por uma sociedade que possa olhar além dos tabus e preconceitos para entender que a sexualidade é muito mais ampla e diversa, no entanto natural e ativa na Criação do que podemos imaginar.
Assim também acontece a interpretação bíblica, “ porque a letra mata, mas o espírito vivifica” 2 Co 3.6b. Se não nos aprofundarmos num estudo sistemático das escrituras, podemos cometer vários erros interpretativos, hermenêuticos e literários. Ou seja, enquanto a lei mosaica, dada por Deus a Moises, mostrava a morte como punição, o Espírito, no texto pneuma, que significa da parte de Deus, nos dá vida em Cristo Jesus. Portanto, não podemos usar a Bíblia literalmente sem entender o contexto e seu lugar no cotidiano histórico, mas um estudo sério e dedicado, sob a luz do Espírito Santo nos direciona a vida. A Bíblia se lida como um código de ética e regimento, em si perde o significado de orientar gerações a entender o projeto de Deus de vida, e esta conquistada por Jesus em sua morte e ressurreição.
Algumas convenções e igrejas interpretaram na Bíblia, 7 passagens usadas como forma de doutrina contra a homossexualidade: Genesis 1 e 2; Gênesis 20, Juízes 19, Levíticos 18; Romanos 1; I Coríntios 6 e I Timóteo 1. Portanto, vamos rapidamente entender algumas:
Gênesis 1 e 2 é –segundo interpretações mais fundamentalistas sugerem que Deus teve apenas uma idéia de criação: união monogâmica, heterossexual com um só propósito, a procriação. No entanto, um estudo teológico comprova que temos nestes dois capítulos dois tipos de tradição sacerdotal e javista para nos orientar sobre a criação. Historicamente e socialmente, naquela época a importância de crescer se dava por um único motivo perpetuar o clã, ou seja, uma família grande é mais forte contra os inimigos. Os casamentos se davam através de contratos pela qual a mulher era um objeto do homem, outro fator vencido na história quando da legitimação da lei a favor das mulheres.
Em Gênesis 20 e Juízes 19 temos histórias muito similares que numa leitura superficial mostrará que elas indicam a falta de hospitalidade. A hospitalidade era uma lei do deserto para garantir auxílio aos peregrinos. No entanto, Sodoma e Gomorra, não ligam a mínima para esta lei desreipeitando até os próprios moradores, conforme brigam com Ló. As referências bíblicas a respeito de Sodoma indicam falta de hospitalidade, avareza e ingratidão.
Em Levítico 18- identificamos outro erro de interpretação, em nosso século entende-se a palavra “abominação” como o que é intrinsicamente mal. A palavra em hebraica é toevah, que tem o significado de ritual não limpo. Porco é toevah, a mulher no período menstrual é toevah. Ter uma ejaculação durante o sono é toevah. Participar da religião sexual pagã de Canaã era toevah. Estas proibições eram indicadas para fazer Israel destacar-se dos vizinhos cananeus. A única coisa que esses escritores sabiam a respeito da homossexualidade era que ela era usada em ritual pagão. Por isso indicado também como toevah. O texto não está falando de relacionamentos homoafetivos, mas de postura homossexual num ritual não aceito no meio judeu. Portanto, nós não podemos escolher e pegar uma toevah para associá-la ao pecado. Ou nós decidimos por todas toevahs ou por nenhuma.
Em Romanos 1- Paulo demonstrou um quadro de uma perversa rebelião. Descrevendo com vívidos detalhes, a mais devassa promiscuidade que ele poderia imaginar. Pessoas cujas necessidades naturais de companheirismo e amor tinham sido pervertidas, onde o desejo era de fazer sexo com qualquer coisa que se mexia, não por amor, mas por pura luxuria. O capítulo inteiro é sobre rebelião contra Deus e Seu propósito para as nossas vidas, mas não sobre atos homossexuais, sendo óbvio extrair do texto que aqueles que estavam envolvidos, não eram homossexuais, mas heterossexuais que estavam negando a sua verdadeira natureza em rebelião contra Deus e a sociedade.
E finalmente, I Coríntios 6 e I Timóteo 1:9-10, que temos na tradução dos dois textos as mesmas palavras e em nossas versões atuais traduzidas por “homossexual”. Os dois textos apresentam uma série de pecados comuns na sociedade greco-romana e que deviam ser combatidos entre os cristãos. A primeira malakoi encontrada em I Coríntios 6:9 significa macio, mas em alguns lugares do Novo Testamento também doente. Nos primeiro escritos cristãos também significava líquido, covardemente, refinado, de vontade fraca, delicado, gentil e devasso. No entanto, no sentido moral, significava licencioso, perdido, sem auto-controle. Ou seja, a palavra tem diversos sentidos e pode ser encontrado na literatura grega designando alguém moralmente fraco, indisciplinado, efeminado, o homem que não se enquadra ao homem exemplar, viril e forte. Portanto, neste sentido, como traduziam os antigos cristãos, “malakoi”, não está exclusivamente relacionado ao homoerotismo, mas a lascívia, a luxúria, ao comportamento libertino ou imoral.
A segunda palavra é arsenokoitai, nunca apareceu em qualquer outro texto, sugerindo que Paulo pode ter criado esta palavra. Suas cartas são certamente as primeiras, nos manuscritos existentes, onde aparece a palavra. Esta é uma palavra composta de arseno referindo a macho e koitai que era uma gíria para sexo, equivalente a uma das nossas palavras mais sujas. Alguns especularam que Paulo usa esse termo para referir-se aos clientes de prostitutos. Isso pode parecer estranho para nossa mente do século 21, mas devemos lembrar que no primeiro século, ambos, pagãos e judeus condenavam o prostituto, mas não condenava o cliente. Assim, ele pode ter sido expandido para a perspectiva moral dessa época. Outros especialistas, afirmam que o arsenokoitai refere-se o parceiro ativo, o homem mais velho, na relação da pederastia, e que malakoi o passivo, o garoto que se submetia ao papel feminino, desta forma os dois termos estariam relacionados. Esta possibilidade se enquadraria perfeitamente na sociedade da época também, onde homens poderosos utilizando o dinheiro e sua influência social, para satisfazer seus desejos sexuais com rapazes.
Portanto, não há na Bíblia, condenação as relações íntimas e monogâmicas do mesmo sexo, aliás eram as únicas que nasciam de amor entre o casal, pois naquela época o casamento era um contrato para perpetuar as famílias, decidido não por amor, mas pelo patriarca, somente nesta época que os casamentos são entendidos como desejo de duas pessoas se unirem para formarem uma família.
Muitos estudiosos acreditam que a bíblia traz relatos positivos de relacionamentos homoafetivos: o amor entre Jônatas e Davi (I Samuel 18:1-4, 20:41-43 e II Samuel 1:26), Rute e Noemi (Rute 1:16-17), Daniel e o eunuco-chefe (Daniel 1:9), o centurião e o seu escravo (Lucas 7:1-10), além de outras possíveis citações a relacionamentos homoafetivos. O certo é que não existem elementos históricos que comprovem tais afirmações. Incluindo também a passagem descrita em Mateus 19:12, pois alguns teólogos afirmam que esta seja uma referência de Cristo a homossexualidade, comparando aqueles que não querem se casar com mulheres aos eunucos, com três possibilidades: os que foram feitos eunucos por outros homens, castrados com o objetivo de servir; os que o são pelo reino de Deus, optam pelo celibato como forma de se dedicarem a Deus; e os que nasceram eunucos. Em torno da última afirmação é que gira o mistério, pois não era comum nascerem homens sem pênis, o que leva a crer que são aqueles que não possuem desejo sexual por mulheres. Alguns historiadores afirmam que os homens que não se casavam e os estéreis também eram chamados eunucos, o termo era empregado como uma espécie de gíria, mas não existem provas históricas que estes homens se envolvessem com outros homens.
Assim entendemos que a Bíblia não condena a homossexualidade, mas qualquer discriminação, promiscuidade, luxuria, desreipeito e desamor. No projeto de Deus amar o outro é tão, ou mais importante quanto gerar uma vida, pois o Reino de Deus se faz presente quando vencemos as barreiras da diversidade e lutamos por justiça, paz e amor com igualdade e respeito. A homofobia e o preconceito só induzem o homem a viver fora do projeto de inclusão que o Jesus veio instaurar e cumprir na sua morte e ressurreição.
Seus Pastores
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